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Atuação da Acupuntura nos Transtornos de Ansiedade

No Brasil, os transtornos ansiosos aparecem entre os mais prevalentes diagnósticos psiquiátricos e constituem o principal problema de saúde mental das regiões urbanas brasileiras.

Calcula-se que mais de 15.000.000 de adultos brasileiros sofram de algum sintoma de ansiedade. Esta é adaptativa e auxilia o indivíduo a tornar-se capaz de lidar com situações difíceis, contribui para o seu crescimento pessoal e para o bom desempenho das suas funções cognitivas. Ela é uma reação de defesa do cérebro a um risco não bem determinado. Os indivíduos criam expectativas desnecessárias sobre os acontecimentos futuros.

A ansiedade é caracterizada por manifestações subjetivas que variam da percepção alterada da consciência até ao medo profundo. Quem sofre dela costuma ser pessimista, ter preocupações intensas, duradouras e frequentes. A ansiedade é considerada patológica quando é excessiva e persistente. Os transtornos da ansiedade são causados por uma detecção falha e consequentemente pela expressão inadequada dos comportamentos defensivos.

A palavra ansiedade vem do latim anxietas que significa mente perturbada. Derivações da palavra e o seu uso nas várias línguas européias provêm da raiz Indo-Germânica angh que dão origem às palavras angústia, angor, angina, ânsia e aflição.

A ansiedade tem sido sempre o sintoma da fronteira entre o distúrbio físico e a desordem da mente. Ela é experimentada somática e psicologicamente, e é também causada por doença física e por conflitos emocionais e tem sido usada desde tempos remotos para descrever um estado emocional desconfortável.

O estresse associado à ansiedade aumenta a produção de hormônios como o cortisol, o hormônio do crescimento e a noradrenalina, que diminuem a imunidade, aumentam a lipoproteína de baixa densidade (LDL) e o risco de infecções, tumores e doenças cardíacas. Sabe-se da relação entre o estresse e a mediação da inflamação e suas implicações na lesão do endotélio vascular. Por essas razões, trata-se de um problema de saúde pública.

O estresse parece ser um dos principais fatores ambientais que predispõem um indivíduo à depressão. Em aproximadamente 60% dos casos, os episódios depressivos são precedidos por fatores estressantes, principalmente os de origem psicossocial. A ansiedade não diagnosticada e não tratada torna-se crônica, podendo evoluir anos depois para a depressão.

Os transtornos ansiosos e os depressivos são assuntos importantes não só para as pessoas portadoras desses sintomas, como também para os seus familiares e para a sociedade. As doenças relacionadas a fatores emocionais têm um alto custo à economia.

Segundo o médico e físico alemão Hermann Von Helmholtz (1821-1894), nossa percepção é construída por meio das inferências que inconscientemente fazemos sobre o mundo à nossa volta. Estas são contrastadas com as informações que o organismo colhe do ambiente. Cada vez que essas expectativas não são correspondidas, ajustamos os nossos perceptos criando novas inferências e testando novas conjeturas.

Como a função fundamental da emoção é a preparação para a ação, essa codificação eficiente dos estímulos é primordial para o sucesso da organização das estratégias comportamentais adequadas. A detecção desses estímulos afetivos desencadeia o engajamento dos sistemas motivacionais, ativando os programas de ação específicos.

A ansiedade pode manifestar-se de várias maneiras. Geralmente ela é reconhecida através dos seus três componentes: o cognitivo, o vegetativo e o motor.

O componente cognitivo está relacionado aos pensamentos e às imagens que a pessoa evoca do seu interior e que traduzem os seus medos, por exemplo, medo de altura, medo de falar em público e outros.

O componente vegetativo representa a ativação de diferentes órgãos e sistemas orgânicos quando surge a ansiedade. Essas manifestações variam muito de indivíduo para indivíduo, em alguns ela se manifesta por alterações cardiovasculares, em outros por alterações no aparelho digestório ou por alterações do aparelho respiratório. Essas alterações são mediadas pelo sistema nervoso autônomo e estão associadas à intensidade da ansiedade. No pânico, por exemplo, ocorre a “tempestade vegetativa”, caracterizada pela ativação generalizada de vários sistemas orgânicos.

O componente motor está relacionado ao comportamento do indivíduo e revela do que a pessoa foge ou evita por sentir-se ansiosa, como por exemplo: uma pessoa pode fugir ao ser repreendida por alguém, por ser esta uma situação humilhante.

Esses componentes têm tendência a manifestar-se associados, mas são individuais nas suas proporções.

Os sintomas psíquicos da ansiedade se caracterizam por sentimento vago e conflitivo de origem desconhecida, por sensação difusa de apreensão, inquietação ou tensão e estão associadas aos sintomas de medo, expectativa de perigo ou de dificuldade, preocupação, temor, nervosismo, irritabilidade, sono perturbado, sonhos desagradáveis, mal-estar, desconforto, insegurança, estranheza do ambiente ou de si mesmo, tontura, falta de ar, fadiga, dificuldade de concentração e a não realização de tarefas, além da sensação de que algo desagradável poderá acontecer 09,10. A ansiedade é um fator perturbador para a atividade intelectual.

Um grande número de pacientes que procuram o serviço médico primário apresentam-se com queixas físicas, mas elas se devem a transtornos psiquiátricos, incluindo a ansiedade, o pânico e a depressão. Muitas vezes esses indivíduos não são corretamente diagnosticados e tratados devido à própria visão do médico alopático.

O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e o sistema simpático adrenomedular são os componentes neuroendócrinos e neuronais primários de resposta ao estresse, tanto na resposta de ansiedade como na depressão. A liberação do cortisol a partir do córtex adrenal, das catecolaminas a partir da medula adrenal, e da norepinefrina a partir dos terminais nervosos, prepara o indivíduo para lidar com as demandas dos estressores metabólicos, físicos e / ou psicológicos e servem como mensageiros cerebrais para a regulação do sistema imunológico.

Uma variedade de estressores físicos e psicossociais podem alterar a resposta imune através das conexões entre o sistema nervoso central, o sistema imunológico e o sistema endócrino e têm revelado a associação entre as emoções e as doenças.

O sistema imunológico produz mensageiros químicos chamados citocinas, que intermedeiam as respostas inflamatórias e imunes e servem como mediadores entre os sistemas imunológico e neuroendócrino. As citocinas próinflamatórias liberadas na periferia estimulam o SNC, ativam o eixo HPA e levam à produção do corticosteróide pela glândula adrenal.

Faz-se necessária a capacitação dos profissionais da saúde para que tenham discernimento entre os riscos verdadeiros para uma doença coronariana, por exemplo, e os riscos imaginários, floreados pelos pacientes portadores de transtornos emocionais. As despesas médicas com esse tipo de “doente” são muito elevadas pelo número de consultas a que se submetem, pelas permanências em hospitais e principalmente pelo custo dos exames complementares.

O diagnóstico das disfunções físicas e / ou psíquicas geralmente é tardio. Isto pode ser explicado pela enorme capacidade do corpo de suportar as alterações funcionais devido aos sistemas auto-reguladores de homeostase e, posteriormente, à heterostase. Com isso as doenças tornam-se complexas por serem o resultado de modificações que ocorrem em diferentes níveis do metabolismo. Devido à ação orquestrada dos vários sistemas, o processo de adoecimento é complexo e o tratamento do indivíduo muitas vezes torna-se difícil, sendo necessária a associação de vários recursos terapêuticos para buscar restabelecer a saúde do indivíduo.

O objetivo dos tratamentos em geral é a remissão dos sintomas e a recuperação da funcionalidade do indivíduo nas esferas física, mental e emocional.

Essas técnicas terapêuticas complementares têm um real valor para muitas pessoas que recorreram à medicina alopática, utilizaram muitos medicamentos e tiveram recorrência dos sintomas ou agravamento da doença. Isso as torna receptivas a outras formas de tratamento.

A propedêutica da Medicina Tradicional Chinesa é muito rica no reconhecimento de alterações funcionais que não são reconhecidas pela Medicina Alopática.

A acupuntura é uma intervenção terapêutica largamente praticada nos Estados Unidos e passou a despertar maior interesse científico dentro da visão médica ocidental somente nas últimas décadas, em função das descobertas das bases neurobiológicas da transmissão dos estímulos dolorosos e dos mecanismos de neurotransmissão e neuromodulação por opióides endógenos. Muitos estudos têm explicado os mecanismos de ação da acupuntura nos termos da neurociência. O uso da acupuntura na analgesia clínica e cirúrgica é bem conhecido 13,14.

Sob o ponto de vista da neurofisiologia, a acupuntura consiste em um estímulo músculo-cutâneo (mecânico e químico) que desencadeia potenciais de ação nas vias periféricas, no Sistema Nervoso Autônomo e no Central, e provoca alterações psicofisiológicas evidenciadas clinicamente, algumas foram estudadas neste trabalho. Sua ação multissistêmica tem sido mais aceita nos últimos anos. Ela é utilizada para tratar vários transtornos inclusive os mentais, como os quadros ansiosos, a irritabilidade e o nervosismo, a melancolia e outros.

A principal característica da acupuntura é a ação harmonizadora que ela promove na modulação dos sistemas que estão em disfunção, melhora as funções viscerais e estimula os mecanismos auto-reguladores da homeostase.

Quando os indivíduos são tratados de modo a sentir-se bem, isto é, sentir que estão mais fortes, lúcidos, mental e emocionalmente, em geral os distúrbios físicos desaparecem por si mesmos. Em termos modernos esse objetivo primário seria o de melhorar o funcionamento dos sistemas adaptativos integrados conhecidos como psiconeuroendocrinoimunológico que operam como um todo.

A acupuntura, entre outros procedimentos terapêuticos, tem sido estudado no mundo todo buscando alternativas eficazes e sem os efeitos colaterais dos medicamentos alopáticos, para auxiliar no tratamento dos transtornos mentais.

Os pontos de acupuntura são pequenas áreas distribuídas na superfície do corpo cuja sensibilidade é diferente das regiões adjacentes, têm características elétricas específicas, apresentam maior condutibilidade e uma menor resistência, isso facilita a melhor condutância dos estímulos elétricos 18.

Anatomicamente a maioria dos pontos de acupuntura tem a sua localização intimamente relacionada aos vasos sanguíneos, aos nervos, ou aos locais onde os nervos periféricos profundos se superficializam através das fáscias musculares ou forames ósseos.

As agulhas de aço inoxidável nas mãos do acupunturista tornam-se mais polarizadas e também estimulam eletricamente os pontos da acupuntura. A estimulação periférica com as agulhas deflagra potenciais de ação nos receptores dos nervos periféricos. Este estímulo é conduzido pelas fibras somáticas aferentes ao SNC e provoca alterações nas vias da dor, nas funções autonômicas e nos hormônios.

Os outros neurotransmissores envolvidos no mecanismo de ação da acupuntura são: o GABA, as β endorfinas, as encefalinas, a dopamina, o CCK-8, o fator liberador de corticotrofina (CRF), a substância P e outros também implicados nos transtornos de ansiedade e de depressão. Quando o organismo que se encontra em desequilíbrio energético e funcional é submetido à acupuntura, essa promove a harmonização visceral e circulatória e tende a restabelecer a normalidade, estimulando a auto cura.

Artigo escrito por: Dr. Jonas Marangon

(Fisioterapeuta, Especialista em Acupuntura)

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